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Kron Gracie Sobre Jiu Jitsu, Skate, Irmãos Maiores e Pais Famosos

Fightland Blog

By Michael Hresko

Fotos por Michael Hresko

“Eu estou perdendo a luta. Estou fazendo tudo o que posso pra sobreviver. Coloquei tudo em tentar escapar. Finalmente eu escapei, e eu olho pro meu pai e pergunto quanto tempo ainda resta. Ele diz: ‘Um minuto’. E eu percebo, no jeito que ele falou, que estava desapontado. Tipo, ‘Seu idiota, como você deixou isso acontecer com você?”

“Então, eu digo: ‘OK’. Eu tinha treinado muitos exercícios de um minuto. Então, na minha cabeça, um minuto é muito tempo. Eu treinei por horas de forma que um cara novo entrava na luta comigo a cada minuto – isso por meses. Eu estou enloquecendo: passo a guarda dele e consigo chegar nas suas costas. Eu olho pro placar. Eu achei que estava 3-3, mas estava 6-3 – não sabia que ele tinha pegado esses pontos de volta duas vezes. Então, eu vou pro mata-leão; ele defende bem. Eu penso: ‘Eu não vou parar, eu não vou parar’. Eu apertei com tudo que eu ainda tinha. Ele desistiu com três segundos restando no relógio.”

“Meu primeiro dia foi assim.”

                                     – Kron Gracie

Kron Gracie acabou de voltar de Pequim, onde ele ganhou a sua divisão nas finais do Abu Dhabi Combat Club (ADCC), o torneio de grappling mais admirado do mundo. Ele submeteu (fazer o oponente desistir da luta graças a uma imobilização) todos os seus adversários, uma façanha que poucos conseguiram realizar. Uns dias depois, ele estava de volta em Santa Monica, Califórnia, pronto para voltar à sua primeira paixão: o skate.

“Meu primeiro amor foi o skate”, me disse Kron quando ele me buscou no seu Ford Bronco vintage azul pra irmos até o famoso skatepark de Venice Beach. “Fiquei OK no skate quando tinha 10 anos. Eu tinha patrocínio dumas lojas de skate bem pequenas, mas eu não era tão bom como o pessoal da minha idade que aparecia nas revistas. Eles eram duas vezes melhores que eu. Se eu estava pulando escadarias de 11 degraus de ollie, eles faziam o mesmo de escadarias de 20.”

Kron cai dentro da piscina assim que chegamos. Enquanto eu mexia com a minha câmera, ele fez algumas manobras e caiu (elegantemente) algumas vezes. “Ninguém nunca tinha tirado fotos de mim andando de skate,” ele revela, sorrindo. Kron é bonitão e suficientemente carismático para parecer famoso fora do mundo da luta. De fato, o skatepark é o único lugar na cidade onde ele parece não conhecer todo mundo, e os skatistas profissionais estranham alguém tirando fotos de um cara de “segunda divisão.” 

“Estou com muita saudade do skate,” Kron diz. “O domingo é o único dia em que eu ando de skate. Preciso de alguma coisa pra aliviar o estresse, algo pra curtir. Eu faço tanto pra minha profissão que eu preciso soltar a pressão que se acumula. Normalmente, eu faço um rolezinho de rua. Você viu como eu faço os slides: isso me ajuda a ficar calmo. Me faz querer voltar mais forte na segunda-feira. Eu fico bem tranquilo, porque me diverti e porque não tinha nada a ver com o jiu-jitsu, nada a ver com treinar o meu corpo a ficar melhor: o foco é só em ficar bem suave. Sempre tem risco. Mas esse risco é do que eu gosto. Gosto do fato de saber que, se eu forçar a barra, posso me machucar e ferrar a minha vida.”

“Eu machuquei o pulso dois meses antes do ADCC. Eu estava lá no half-pipe apavorando. Bem, quando achei que tava arrepiando, eu caí. Eu achei que tinha quebrado. E eu aí, pensando, ‘Porra, meu pai vai ficar muito bravo.”

O pai de Kron é Rickson Gracie, um lutador renomado ao redor do mundo e um pioneiro das artes marciais mistas. Há quem ache que Rickson é o lutador de jiu-jitsu dominante da família Gracie. Ele fez seu nome comprovando a efetividade da sua arte em lutas de exibição de peso aberto no Brasil. Depois de se mudar pra California em 1989, Rickson, junto com seus irmãos, abriram uma academia que se transformou no centro do universo do jiu-jitsu Gracie, que crescia rapidamente.

“Eu estava aqui quando meu pai abriu a sua primeira academia num prédio de merda do lado de um mecânico,” conta Kron. “O cheiro era muito ruim. O UFC tinha acabado de começar; então, na época, só aparecia gente que queria aprender a se defender na rua. Era só isso. Não tinha fãs. Não era coisa de burguês, e não tinha ninguém tentando vender o jiu-jitsu pra você. Não havia franquias, nem mercado pro jiu-jitsu. Na época, não existia competição.”

“Cresci na época [em] que a coisa era bem autêntica. E é assim que tento mantê-la agora. Acho que manter a autenticidade é o certo. Tenho trabalhado muito pra provar que o jiu-jitsu do meu pai é o melhor e que minha imagem é a mesma. Mas o que muitas pessoas não sabem é que eu só tenho vestido o [quimono] com o meu pai em menos de 100 ocasiões. Eu sou independente desde os 17 anos. Meu pai só me ensinou quando eu era muito criança.”

O irmão mais velho de Kron, Rockson, era forte, extrovertido e agressivo. Adolescente, ele tatuou o seu sobrenome na nuca e ‘21st Century Warrior’ (Guerreiro do Século 21) nos ombros. Kron era mais um garoto surfista: ele era bem passivo quando começou a treinar e competir em jiu-jitsu com seu irmão. Quando Rockson morreu em 2000, Rickson entrou em reclusão e Kron deixou de lado o skate e começou a se dedicar para se transformar no próximo grande durão do clã Gracie.

“Aos doze anos eu já tinha quebrado cada um dos meus tornozelos duas vezes andando de skate,” afirma Kron. “Foi, então, que o meu irmão me disse que, qualquer coisa que eu fosse fazer, que fizesse 100%, seja isso sendo skatista ou medico. Ele disse que tive a sorte de ter acesso à melhor família do jiu-jitsu, ao melhor pai do jiu-jitsu, e à melhor academia. Seria idiota da minha parte não aproveitar isso. Mas ele encerrou a conversa me dizendo que eu podia fazer o que eu quisesse. Eu escutei, mas, quando ele morreu, senti que era a minha missão fazer o que ele queria.” 

Igual a seu pai, Kron é uma personalidade que divide opiniões no mundo do grappling. Quando era uma criança em torneios de BJJ, ele tinha aquele ar de academia de garagem. E ele era muito mais hip-hop que seus primos. Sua atitude refletia um Rickson jovem e selvagem de épocas passadas. 

Mesmo assim, Kron comentou que, por anos, ele sentiu muito pouco além de ressentimento pelo seu pai, que deixou a sua mãe quando Kron ainda era jovem. 

“Minha mãe e meu pai tiveram um casamento difícil, mas batalharam pelos filhos, até que ele achou que eu estava pronto pra ser independente. Quando ele sentiu aquele momento, ele foi embora,” destaca Kron. “Foi literalmente do dia pra noite, e ele disse algo como: ‘Bom, vou cair fora daqui e voltar pro Brasil’. Na época, eu era decente no jiu-jitsu, mas ainda era só criança. Fiquei muito magoado. Achava que ele deveria estar aqui me apoiando e me dando aulas, e fazendo um monte de coisas pra mim, certificando-se de que eu estivesse fazendo os movimentos de quadril corretamente. Eu não tinha ninguém em [sic] quem contar. Tudo que tinha eram os meus alunos e parceiros de treino. Então, eu só treinei. Até o ano passado, eu era só ressentimento. Ele poderia ter me deixado muito melhor!”

O olhar de Kron se perde sobre a praia. “Mas, de repente, tudo ficou claro: meu pai nunca mais seria meu treinador,” ele frisa. “Eu ainda esperava que ele fosse aparecer pra treinar comigo antes dos Mundiais [a] cada ano. Ele me ligava e dizia: ‘Eu vou lá treinar’. Aí ele aparecia uma semana antes. Dizia ‘E aí’ pra mim, e daí ele desaparecia e aparecia de novo, justo na hora da minha luta.”

“Há um ano, justo antes do primeiro Metamoris, ele me disse que ia aparecer e treinar comigo. Ele apareceu, de novo, só na minha luta, e a gente sentou um do lado do outro. Na época, eu tinha esse ressentimento, porque eu pensava: ‘Você me disse que ia chegar três semanas antes da luta como sempre, e você não chegou’. Mas isso não importava. O que importava era que ele estava ao meu lado nesse instante. Comecei a pensar sobre o meu irmão e a chorar, e aí nós dois choramos juntos. Ninguém disse nada. Foi muito espiritual. Ele continuou não dizendo nada pra mim, e aí eu fui lutar. Ganhei. E percebi que nada disso tinha nada mais a ver com o jiu-jitsu, sabe? Ele é só o meu pai. Não posso esperar que ele também seja o meu treinador. Então, agora, cada vez que ele vem pra cá, eu nem pergunto se ele quer treinar. Eu nem faço perguntas sobre jiu-jitsu. E, desde então, ele aparece por aqui e me ajuda a treinar! É muito estranho.”

“Agora, eu penso que o fato de ele ter me deixado tão pequeno foi a forma dele de me fazer um homem e de me mostrar como fazer as coisas do meu jeito. Agora, aos 25, acho que sou muito mais do que eu poderia ter sido. No momento [em] que fiquei sozinho e tive de lutar por mim mesmo, comecei a ganhar. Tenho a responsabilidade e [a] obrigação de competir e representar o meu pai e meu avô. Isso é necessário. Eu não posso viver só do nome da família. Não acho certo. Eu até que poderia só ter a minha academia e vender produtos, e fazer seminários e coisas desse tipo. Eu poderia ter feito isso há seis anos depois de ter ficado mais ou menos bom no jiu-jitsu. Eu tenho de retribuir, e isso quer dizer que devo manter vivo o nome da família. 

“Meu pai sempre falou que eu tinha de ser guerreiro, que eu tinha de lutar pelas coisas em que acredito. É daí que vem a minha fundação.” 

Ainda estamos sentados no calçadão de Venice vendo os skatistas fazendo as suas manobras. Pergunto pra Kron se ele acha que teria decidido ser lutador profissional se o irmão dele ainda estivesse vivo. 

“Acho que não,” ele responde. “Só sei que, neste momento, escolhi o jiu-jitsu, e não o skate. Talvez, se ele estivesse indo muito bem no esporte, eu treinaria. Mas eu não sei, cara — talvez isso só teria me afastado.” 

“Ninguém sabe o que teria acontecido comigo se o meu irmão ainda estivesse aqui. Mas o seu espírito ainda está aqui, e é isso o que me motiva.” 

 

 

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